

Artista Plástico, vive e trabalha em São Paulo. Formado pela Fasm, também é artista integrante do Grupo Cor (ECA/ USP)
Vilém Flusser foi um filósofo judeu, nascido em Praga em 1920. Teve uma vida muito emblemática para a herança do pensamento ocidental. Procurou um ponto de encontro entre a filosofia e a poesia, era muito rigoroso com os limites da língua, pois foi exímio conhecedor do Francês, Português, Inglês, Alemão. Estudou filosofia em Praga e após a invasão Nazista em 1939, fugiu para Londres, deixando a sua língua materna. Depois foi para o Brasil, onde casou-se em 1940 e se estabeleceu em São Paulo. Integrou-se à comunidade filosófica paulista, principalmente através do diálogo com Vicente Ferreira da Silva. Escreveu seu primeiro livro em 1963. Foi Professor convidado junto à Escola Politécnica da USP, onde lecionando filosofia da ciência; foi fundador do curso de Comunicação Social da FAAP; foi colaborador na Revista Brasileira de Filosofia, no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo; foi colunista na Folha de São Paulo e na Frankfurter Allgemeine Zeitung, entre outros. Em 1972, mudou-se para a Europa, estabelecendo-se em Robion, na França. Andou muito pela a Europa realizando diversas palestras e em 1992, ao voltar a Praga como convidado para uma delas, morreu em um acidente após a palestra.
“Texto/Imagem enquanto dinâmica do Ocidente” consiste na contradição existente entre o gesto que produz imagens e o gesto que produz textos. Flusser propôs quatro eventos crucias na história ocidental, que permitem captar a “fenomenologia do espírito ocidental”. Primeiramente, com a imagem se articulou a imaginação, com os primeiros textos se articulou a conceituação, com os primeiros impressos a conceituação foi dominando a imaginação e com as primeiras fotografias veio surgindo uma imaginação nova, com consequências ainda imprevistas. Flusser inicia em Lascaux e avança até os primeiros textos alfabéticos e de lá até os primeiros impressos e enfim até a primeira fotografia. Segundo Flusser este período entre Lascaux e os textos pode ser chamado de pré-história, o que parte da fotografia rumo ao que se segue pode ser chamado de pós-história e o período central, Flusser chama de história no sentido exato da palavra. O acumulo imagem, nesta visão de Flusser, vira alucinação, idolatria. E corresponde a consciência pré-histórica, da magia.
Com os textos alfabéticos lineares, se dá um passo para trás da imagem, a fim de libertar o facínio alucinador que exercem, trata-se de tornar as imagens transparentes paras as circunstâncias que encobrem. Isso implica que os elemento pictóricos sejam transcodificados de idéias em conceitos, substitui a imaginação pela unidimensionalidade do pensamento conceitual, claro distinto e progressivo. Surge uma zona conceitual entre o homem e sua imaginação através da qual o homem vai poder controlar sua imaginação para poder manipular racionalmente os objetos, com esse feedback a zona conceitual vai de desintencificando e as cadeias que ordenam o conceito vão ao extremos e vira textolatria. A historia do ocidente passou a ser dialética entre texto e imagem. Com a invenção da imprensa a consciência histórica passou a dominar a sociedade toda. Isso porque impressos baratos e a introdução da escola obrigatória levam à uma inflação de textos.
Já o gesto fotográfico, trata de dar um passo para trás dos textos, arrancar conceitos dos quais são compostos, de torná-los imagináveis. Dado o feedback entre o gesto e a consciência, o universo das imagens técnicas vai se desintencificando e nova capacidade de imaginar vai surgindo. O que é uma condição pós-histórica segundo Flusser .
Durante a produção de imagens tradicionais o homem recua da circunstância a fim de abarca-la com sua vista. Durante a produção das imagens técnicas o homem recua dos seus conceitos para imaginá-los.
Flusser fecha o texto justificando a condição pós-moderna e associando à conotações apocalíptica. Isso porque as imagens técnicas, que vão emergindo entre nós, também vão absorvendo o pensamento conceitual, critico. Flusser diz que tais imagens vão nos mergulhando na noite escura da imaginação emancipada da critica disciplinada. Toda a história ocidental, nessa luta entre o conceito contra a idéia, se revela uma “comedia dos erros”. Em suma: as imagens novas são a nossa derrota.
Percebo que no texto de Flusser esta contradição entre imagem e texto, de certa forma é o que dá sentido ao mundo. Nossa condição pós-histórica em um mundo globalizado, não significa que vivemos em um mundo uniforme, pelo contrário vivemos com resquícios pré-históricos dentro de nós e isso ainda está convivendo simultâneamente no mundo. Na realidade são níveis de complexidade diferentes. Mas a produção de sentido está principalmente na justaposição entre imagem e texto. Concordo com essa idéia da colagem, à que se referiu Basbaum, vivemos um mundo de colagens, um mundo de certa forma Dadaísta. Está é a condição contemporânea, a condição de produzir sentido às coisas. Talvez por isso que Flusser termina o texto com esta reflexão apocalíptica à respeito da novas imagens e o resultado disso futuramente.
A composição química do Carvão e do Diamante é a mesma, diferindo apenas pelo estado em que se encontram (o carvão submetido à um longo período sob alta pressão, se torna a pedra bruta do diamante). Também na extração da pedra, assim como na produção do carvão, percebo semelhanças nas práticas nocivas à saúde dos trabalhadores, começando pelo trabalho escravo, maus tratos e agravada por ineficientes políticas sociais. Economias que não consideram o homem como parte do processo, e ao contrário são nocivos aos direitos humanos. Fato que é intrínseco numa das diversas possibilidades de leitura deste trabalho e que muitas vezes não são sequer questionados por consumidores e empresários do ramo. Podemos perceber e nos calar diante de mais uma possibilidade para viabilização econômica, que é o centro do novo pensamento globalizado, a redução de custos com a mão de obra e a distância social cada vez mais aparente. O que está em jogo de fato é o questionamento sobre o sistema econômico mundial, suas mazelas e a contribuição para a minoritária elite.
De fato meu interesse está em provocar estas analogias, através da ralação com a forma. O fato de lapidar “toscamente” o carvão, me parece um caminho para discutir estas questões formais e sociais. Por um lado o objeto de desejo, símbolo de riqueza e por outro o objeto pobre, sem valor feito para queimar em fornálias. O carvão quer ser diamante! Quer se tornar nobre, sair do “anonimato”. Neste sentido é possível fazer um paralelo em relação ao trabalho do Edgar de Souza, que busca em suas “gemas” pintadas à óleo sobre tela, comentários sobre a cobiça e a sedução, nelas também há uma busca pela formalidade. O processo "tosco" de lapidação do carvão assemelha-se, de certa maneira, à um tratamento de uma jóia, pela delicadeza que se deve empregar à peça, para que não seja destruída. O lixamento deve ser muito sutil, pois sua consistência é muito leve. Os reflexos existentes no carvão lapidado, também lembram e fazem compreender o brilho de uma pedra de diamante. Em relação o que é nocivo no carvão, pude experimentar na pele o mal que o pó fino faz à saúde.
O objeto ainda pode ser observado de um jeito menos literal, com menos legendas e jogos de associação. Lembrando o artista Franz Weissmann, que trabalha com linhas e espacialidade, conferindo uma tridimensionalidade ao objeto. Nesta fase procuro trabalhar com varetas finas de carvão vegetal, que além de agregar uma espacialidade ao objeto, brinca também com o oco e o vazado da peça. o que remete à obra de Rubens Gerchman – “AR” (1975), que também utiliza o elemento "vazado” para aferir jogos de interpretação. Este objeto agora pode ser associado de uma forma mais apropriada ao "vácuo" de uma disparidade social, de uma futilidade elitista e vazia.